Notas de uma psicologia cognitiva
Como já observei em outro texto, o loft estava situado no bairro Normandia. Em cerca de trinta minutos de caminhada eu já podia chegar ao Jardim Botânico ou ao Parque Simón Bolívar — ótimos lugares para espairecer. Em uma dessas caminhadas, fiquei pensando sobre como um viajante (ou caminhante, já que a reflexão serve para várias posições) vai construindo seus conhecimentos acerca dos lugares e também sobre como vai se percebendo no processo de conhecer. É importante sublinhar: estamos sempre pensando-sentindo-agindo (ver Orlando Fals Borba - um dois maiores intelectuais e investigadores sobre pesquisa-ação participante.
A partir dessas reflexões, proponho um pequeno exercício de imaginação. Vamos juntos?
Primeiro dia – No início da viagem ou da caminhada, você percebe tudo. Justamente porque sabe que não sabe de nada, está atento, curioso. A ansiedade — pequena ou moderada — é ativada pela necessidade de se situar, e acaba funcionando como um motor para sua atenção e orientação.
Segundo dia – Você começa a reconhecer caminhos já percorridos. Vê coisas que já tinha visto, mas agora com familiaridade. Surge a sensação de orientação, de que já sabe um pouco mais.
Dias seguintes – Você passa a acreditar que já conhece tudo. Até sente certo orgulho de dominar os trajetos. A ansiedade inicial diminui e a atenção se dispersa: é capaz até de caminhar de forma automática, com certa desatenção.
Depois de um tempo – Suponha que você se afaste desse lugar e, algum tempo depois, retorne. As memórias e referências da primeira experiência ressurgem, mas agora sua percepção é outra. Você consegue notar detalhes que antes passaram despercebidos. Reconhece o que sabia, mas também percebe o quanto não sabia. Descobre que conhecer é sempre relativo e inacabado.
E o que podemos extrair dessa pequena experiência mental? Algumas lições possíveis:
Pensar é sempre pensar-sentir-agir. Nossas funções cognitivas — atenção, memória, percepção — se transformam conforme também mudam nossas emoções e disposições.
Reconhecer o quanto sabemos (ou não sabemos) depende da nossa abertura para aprender. O que parecia domínio total pode, na verdade, revelar-se apenas um fragmento diante de novas perspectivas.
Claro que essa é apenas uma narrativa relativa, entre tantas outras possíveis. Mas fica a pergunta para você que lê: o que mais pensaria a partir dessa história?


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