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Mostrando postagens de setembro, 2025

A chegada de Lucimar

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Minha viagem foi planejada para durar um mês. Nos últimos quinze dias, Lucimar, minha esposa, veio se juntar a mim. Fui buscá-la no aeroporto e, confesso, a expectativa já me deixava ansioso. Foram quinze dias sem falar português cara a cara com alguém, apenas nas mensagens e vídeos virtuais. Quando a vi chegando, a alegria se misturou com a vontade de falar sem parar. Eu estava tagarela, cheio de histórias, impressões e pequenos relatos guardados na memória, esperando apenas por esse momento de partilha. A chegada dela marcou também uma mudança no ritmo da viagem: deixou de ser apenas uma experiência solitária de imersão para se tornar uma vivência compartilhada, com novas descobertas e olhares em dupla.

O barato do confronto cultural: lição gadameriana

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Um dos maiores baratos de uma viagem de imersão cultural é justamente vivenciar as diferenças e semelhanças, as aproximações e os distanciamentos que sempre surgem, em maior ou menor grau, no encontro intercultural. Digo  confronto  (com - em frente) não no sentido de briga, mas no de estar diante do outro, em face a face. Entre brasileiros e colombianos, por exemplo, há muitas proximidades: a latinidade que compartilhamos, seja do ponto de vista linguístico, histórico ou mesmo político, cria uma base de reconhecimento. Ao mesmo tempo, as diferenças se impõem de forma contundente, revelando singularidades. O mesmo aconteceria em um “confronto” cultural com japoneses: haveria tanto elementos de aproximação quanto de distanciamento. Aliás, mesmo entre pessoas de uma mesma cultura, esse jogo de diferenças e semelhanças se manifesta. Basta entrarmos nas peculiaridades individuais para percebermos que cada sujeito traz um mundo próprio. É nesse movimento — entre o que nos aproxima ...

Um projeto de Universidade encantador - UNIMINUTO em Perdomo

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  Durante minha estada em Bogotá, visitei o campus da  UNIMINUTO  no Perdomo, na localidade de Ciudad Bolívar, e a experiência me fez refletir sobre como o projeto dialoga com as condições reais de vida da comunidade e quanto pode inspirar as universidades brasileiras em termos de inovação curricular e e mesmo a concepção institucional. O bairro e suas condições de vida Ciudad Bolívar é uma localidade extensa, complexa e marcada por profundas desigualdades sociais. Cerca de  53,1 % dos terrenos estão classificados no estrato 1 , e  39,9 % no estrato 2 , ou seja, uma grande parte da população vive em condições econômicas modestas . A localidade abriga cerca de  603 mil habitantes , representando cerca de 8,8 % da população de Bogotá .  A educação também apresenta desafios: a população com mais de cinco anos tem, em média,  6,7 anos de escolaridade , bem abaixo da média de Bogotá (8,7 anos). A taxa de analfabetismo em Ciudad Bolívar é de a...

Notas de uma psicologia cognitiva

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Como já observei em outro texto, o loft estava situado no bairro Normandia. Em cerca de trinta minutos de caminhada eu já podia chegar ao Jardim Botânico ou ao Parque Simón Bolívar — ótimos lugares para espairecer. Em uma dessas caminhadas, fiquei pensando sobre como um viajante (ou caminhante, já que a reflexão serve para várias posições) vai construindo seus conhecimentos acerca dos lugares e também sobre como vai se percebendo no processo de conhecer. É importante sublinhar: estamos sempre pensando-sentindo-agindo (ver Orlando Fals Borba - um dois maiores intelectuais e investigadores sobre pesquisa-ação participante. A partir dessas reflexões, proponho um pequeno exercício de imaginação. Vamos juntos? Primeiro dia  – No início da viagem ou da caminhada, você percebe tudo. Justamente porque sabe que não sabe de nada, está atento, curioso. A ansiedade — pequena ou moderada — é ativada pela necessidade de se situar, e acaba funcionando como um motor para sua atenção e orientação...

Latinidade: explosões afetivas?!

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Como não poderia deixar de ser, por conta dessa latinidade tão presente na América do Sul e na América Central (na América do Norte temos o México e a parte francesa do Canadá - afinal os quebequenses são latinos, ainda que não concientes disso), o povo colombiano — ao menos aqueles com quem tenho tido contato — se mostra muito simpático e educado no trato pessoal. É comum ouvir sempre um “bom dia”, “mucho gusto”, “gracias”, acompanhado de expressões de respeito como “señor”, “señora” ou “caballero”. Essa cordialidade no convívio cotidiano é algo que chama bastante atenção. No entanto, esse traço contrasta fortemente com o trânsito da cidade: motoristas impacientes, buzinas constantes e pouca tolerância. Penso que a situação só não é mais violenta devido à grande quantidade de redutores de velocidade e controles eletrônicos espalhados pelas vias. Essa ambiguidade entre a delicadeza nas relações pessoais e a rudeza no trânsito parece revelar uma contradição própria da vida urbana em Bog...

Não precisamos de muito para sermos felizes

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Estou hospedado em um lugar bem simples: um loft de cerca de 30 m², localizado em um bairro (Normandia) de trabalhadores e de classe média. Aqui, os estratos sociais são numerados de 0 a 6, e eu diria que estou situado entre os estratos 2 e 3. Claro que, mesmo em um bairro como Normandia, dependendo da quadra, encontram-se também moradias do estrato 4. A região é marcada por pequenos comércios, conjuntos habitacionais e empresas de médio porte, como pequenas fábricas e oficinas. É um bairro tranquilo, e já começo a reconhecer algumas pessoas — e elas a mim. Esse reconhecimento recíproco significa um pequeno início de participação na vida cotidiana do lugar. Outro aspecto curioso é a dinâmica calma das ruas, mesmo cercadas por grandes avenidas e pelo constante pousar e decolar de aviões — afinal, o aeroporto de Bogotá, considerado o maior da América Latina (em termos de fluxo de vôos), fica bem próximo. Aqui levo uma vida simples, e é justamente nessa simplicidade que volto a me dar con...

O papel social das revistas científicas

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Já faz algum tempo que venho burilando uma ideia relacionada à publicação de textos de professores e alunos da educação básica. Essa reflexão nasce de duas frentes. A primeira é uma posição crítica diante da lógica de mercado que tomou conta da produção acadêmica — especialmente no que se refere à publicação de artigos. Hoje, os programas de pós-graduação são avaliados quase exclusivamente pela produção de seus docentes e discentes, traduzida em números de artigos publicados em revistas. Muitas dessas revistas são pagas, o que gera uma corrida desenfreada por publicações. Vale mais a quantidade que a qualidade, e pouco se pergunta sobre o sentido ou a finalidade dessa produção. As próprias revistas acabam entrando nessa engrenagem, movidas por exigências de indexadores e métricas. Por trás disso, opera uma verdadeira indústria global da avaliação: indexadores, métricas e, em última instância, as big techs que controlam os fluxos e lucram com esse grande  business  da ciência. ...

A experiência hermenêutica de conhecer Bogotá

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Como acontece em boa parte das grandes metrópoles do mundo, Bogotá é marcada por uma grande variedade cultural. Ainda assim, é fácil perceber que estamos na Am érica Latina. Embora as ruas de muitos bairros residenciais sejam tranquilas, logo se nota a alegria, a expressividade e a vitalidade que transbordam no cotidiano. Reconheço que tais observações são delicadas: há sempre o risco de caricaturar pessoas ou de se perder em pré-conceitos. Mas justamente aí reside uma lição hermenêutica importante: as primeiras impressões, que são inevitavelmente juízos prévios, funcionam como aproximações que permitem compreensões iniciais. Em uma imersão inicial em outro país, é natural — e até desejável — que façamos comparações, associações e leituras a partir de informações prévias. Esses pré-conceitos não devem ser encarados como verdades fixas, mas como pontos de partida, nunca de chegada. Sigamos, então, nesta aventura, permitindo que novas experiências abram espaço para novas compreensões.

Sentido e percebendo a cidade

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Bogotá, capital da Colômbia, é uma metrópole de cerca de 8 milhões de habitantes situada a 2.600 metros de altitude. O clima varia bastante ao longo do dia: as manhãs podem começar frias, com 8 °C, e, algumas horas depois, o sol pode elevar a temperatura para 20 °C — sem contar a possibilidade de chuva repentina. Minhas primeiras impressões, sempre marcantes em uma viagem, foram curiosas. Apesar de ser uma grande capital, que concentra a principal malha aérea da América do Sul, Bogotá transmite um ritmo relativamente tranquilo quando comparada ao Rio de Janeiro ou a São Paulo. A paisagem urbana é composta, em sua maioria, por casas em formato de sobrados, muitas vezes com pequenos comércios funcionando nas próprias garagens. Embora a cidade não seja tão limpa quanto poderia ser, chama a atenção o uso reduzido de plásticos nos mercados e feiras. Até mesmo os sacos de lixo vendidos nos supermercados são fabricados com material biodegradável. Outro detalhe curioso: é comum que as bebidas ...

Super perro

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Mas antes de seguir com as meras descrições do meu dia a dia, quero trazer um pouco de impressões e algumas outras reflexões para os registros... Viajar é também prestar atenção às palavras que nos rodeiam. Em Bogotá, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a convivência entre influências linguísticas e culturais — algumas sutis, outras bem explícitas. É impossível ignorar a pressão do chamado  americanismo , que invade a linguagem, a publicidade, a moda e, claro, a gastronomia. Ainda assim, a cidade parece resistir, reinventando o que vem de fora. Um exemplo curioso são as barraquinhas que vendem o famoso  “super perro” . À primeira vista, trata-se de um hot dog, herança estadunidense. Mas o nome em espanhol — e, mais ainda, os ingredientes locais que se somam ao pão e à salsicha — dão ao prato uma identidade própria. É como se fosse um diálogo entre culturas: o formato importado, o sabor recriado. Esse detalhe simples me fez pensar que a influência cultural não é um ...

Mantimentos e observações

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Outro dia saí para renovar os mantimentos no mercado. O cansaço ainda me acompanha. Não sei ao certo se é resultado de alguma inflamação na garganta, talvez causada pelo frio — não sei bem por que associei a isso — ou se é apenas reflexo da intensidade das atividades desses dias, somada à ausência da minha rotina habitual de exercícios físicos. No mercado, aproveitei para observar melhor o valor do peso colombiano (COP) e ter uma noção mais concreta do custo de vida por aqui. Um café, por exemplo, custa em torno de 3.000 a 4.000 pesos (cerca de 4 a 5,50 reais), enquanto um quilo de frutas tropicais — como mamões, tão abundantes — varia entre 5.000 e 10.000 pesos. Já o transporte público se mantém acessível: uma corrida curta de ônibus urbano sai por cerca de 2.500 pesos. Essas pequenas comparações me fazem refletir sobre como cada moeda carrega um modo de vida. Comprar pão, frutas ou café aqui não é apenas um gesto cotidiano: é também uma forma de me aproximar da cultura local e de per...

La Vorágine

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Em uma das minhas andanças, nos intervalos entre os trabalhos, aproveitei para comprar um livro:  La Vorágine , de José Eustasio Rivera — um clássico da literatura colombiana publicado em 1924. A obra retrata de forma intensa e poética a selva amazônica e os dramas humanos que nela se desenrolam, especialmente a exploração dos trabalhadores da borracha. Mais do que um romance, é uma denúncia social e um mergulho na força avassaladora da natureza. Achei simbólico adquiri-lo aqui, no próprio solo colombiano, como se o livro carregasse um pedaço vivo da história e da cultura deste país. Ademais, uma oportunidade para aprender um pouco mais o espanhol. Confesso que, pela linguagem do livro, não está sendo algo tão tranquilo como eu imaginava.

Entre o fuso e os afazeres

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A dor na garganta, que começou no final da tarde anterior, ainda me acompanhava. Além disso, sigo sem me adaptar ao fuso horário (são duas horas a menos), e por isso continuei acordando às 4h da manhã, no horário local. Depois de um café Valdez, retomei os trabalhos. Consegui finalizar um artigo em parceria com o colega Diego, sobre os currículos de licenciatura e a falta de harmonização, especialmente nos componentes curriculares ligados à área de didática e pedagogia. Percebo que essa viagem tem sido também um momento de colocar em dia várias pendências que estavam em espera — coisa típica de professor, que muitas vezes usa férias e folgas para trabalhar. Aliás, tirei férias justamente para mergulhar nessa missão. Além de concluir o artigo, avancei na proposta de uma nova agenda de trabalho do projeto com o professor Benjamin Barón (UNIMIUTO), articulei melhor o contato com a professora Adriana, do Colégio Dom Bosco, que é da rede Salesiana, cuidei de algumas demandas da Pró-Reitoria...

Bogotá: entre parques, bicicletas e desafios

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Bogotá é uma capital com quase oito milhões de habitantes e, com certo orgulho, as pessoas costumam dizer que a cidade, com seus 1.635,75 km², é muitas vezes maior que a "Cidade Luz" (Paris). É uma metrópole que preserva uma significativa área verde, contando inclusive com um sistema de parques urbanos.  Além disso, dispõe de uma extensa malha de ciclovias e ciclofaixas. Quando não circulam de bicicletas, muitos moradores utilizam patinetes elétricos ou motos elétricas — um uso disseminado e que revela um compromisso com alternativas sustentáveis, algo realmente notável. Nesse mesmo espírito de sustentabilidade urbana, destaca-se também a quase inexistência do uso de sacolas plásticas: quando disponíveis, são geralmente opções biodegradáveis. Em relação aos copos plásticos, é comum ver as pessoas beberem diretamente da lata. O metrô da cidade, tão aguardado, está prestes a ser inaugurado, o que trará novas possibilidades de mobilidade.  Contudo, há ainda espaço para avanços, ...

O tempo que desacelera

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Solo Efectivo

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A chegada, suas praticidades e cansaço

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Em missão e em imersão: Sobre a origem da viagem

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                                                   Viajar é sempre mais do que deslocar-se no espaço — é mover também o olhar, o pensamento e a sensibilidade. Uma viagem, quando vivida em profundidade, é uma travessia entre mundos: o do outro e o nosso próprio. Cada encontro, cada silêncio e cada paisagem nos convidam a reaprender a ver, a escutar e a estar. Esta viagem tem origem no projeto  “Qualificação de Periódicos Científicos de Educação: articular para internacionalizar” , financiado pelo CNPq e pela FUNCAP, que reúne pesquisadores de diversas universidades brasileiras e estrangeiras. No nosso caso específico, a parceria envolve a  UNIVASF  (Brasil), com sua revista  REVASF , e a  UNIMINUTO  (Colômbia), com a revista  Práxis Pedagógica . A missão teve duração de trinta dias — tempo suficientemente longo para a realiza...