O papel social das revistas científicas



Já faz algum tempo que venho burilando uma ideia relacionada à publicação de textos de professores e alunos da educação básica. Essa reflexão nasce de duas frentes.

A primeira é uma posição crítica diante da lógica de mercado que tomou conta da produção acadêmica — especialmente no que se refere à publicação de artigos. Hoje, os programas de pós-graduação são avaliados quase exclusivamente pela produção de seus docentes e discentes, traduzida em números de artigos publicados em revistas. Muitas dessas revistas são pagas, o que gera uma corrida desenfreada por publicações. Vale mais a quantidade que a qualidade, e pouco se pergunta sobre o sentido ou a finalidade dessa produção.

As próprias revistas acabam entrando nessa engrenagem, movidas por exigências de indexadores e métricas. Por trás disso, opera uma verdadeira indústria global da avaliação: indexadores, métricas e, em última instância, as big techs que controlam os fluxos e lucram com esse grande business da ciência. Foi nesse contexto que comecei a pensar em algo que pudesse se contrapor a esse modelo — não de maneira ingênua, mas como gesto crítico e criativo.

A segunda frente tem a ver com o incentivo à formação de leitores e escritores e com a valorização da educação básica. Sabemos que há uma crise nesse campo, especialmente em tempos de mídias digitais e agora com a inteligência artificial. Nada contra essas ferramentas, mas é preciso formar sujeitos autônomos que possam controlar as tecnologias — e não serem controlados por elas, até porque não são neutras.

A ideia seria criar uma seção na Revasf (e, quem sabe, replicar a experiência em outras revistas) dedicada à publicação de produções textuais de professores e estudantes da educação básica. Não se trataria, porém, de algo espontâneo e desarticulado. O projeto implicaria mobilizar esforços para formar essas escritas de modo consistente, com acompanhamento pedagógico e fundamentação teórica. Sei que essa proposta dialoga com experiências já existentes de iniciação científica, mas o diferencial estaria na junção de duas ações complementares:

  1. Preparar as revistas para receber esse tipo de material — o que exige definir políticas editoriais, pensar critérios de avaliação e até lidar com resistências no próprio sistema de avaliação acadêmica (pois, paradoxalmente, isso pode até prejudicar a classificação das revistas).

  2. Articular professores e alunos da educação básica em processos formativos que os levem a experimentar a escrita como prática de autoria, reconhecendo o valor de suas produções e sua legitimidade para circular em espaços acadêmicos.

Não é algo simples, mas pode ser transformador. Ao permitir que estudantes da educação básica se descubram como leitores e escritores, e ao publicar seus textos em uma revista científica, ampliamos o alcance da formação e damos novo sentido ao papel social dos periódicos. Nesse modelo, as revistas deixariam de ser apenas engrenagens de uma corrida por métricas e passariam a assumir um papel de impacto social e cultural, fortalecendo a educação básica e, ao mesmo tempo, criando novas pontes de leitura para artigos já publicados — que muitas vezes permanecem isolados e pouco acessados.


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