Sobre perdão, reconciliação e esperançar: a experiência da UNIMINUTO – campus Perdomo
Para compreender melhor a experiência vivida na UNIMINUTO – campus Perdomo, é importante contextualizar algumas questões históricas, culturais e políticas da Colômbia. De modo semelhante ao restante da América do Sul e da América Central, o país carrega as marcas de uma colonização violenta — não apenas no momento da chegada dos espanhóis, mas ao longo de todo o processo de ocupação posterior. As relações com os povos originários, as disputas por terras e riquezas naturais e a consequente exclusão das populações mais pobres deixaram cicatrizes profundas, que ainda hoje se fazem sentir.
A esse quadro histórico somou-se um fenômeno particularmente complexo: o narcotráfico. A Colômbia é um dos maiores produtores de cocaína do mundo, e essa realidade desencadeou uma teia de disputas, controles e contracontroles, envolvendo inclusive forças paramilitares organizadas sob o próprio patrocínio do Estado. O resultado é uma sociedade profundamente marcada por tensões, deslocamentos e violências que, há décadas, desafiam os esforços por reconciliação.
Atualmente, uma das grandes discussões no país gira em torno da tentativa do governo de promover uma espécie de perdão social — uma anistia que busca reunir setores historicamente apartados e construir um novo pacto de convivência nacional. Mas, como bem lembrava o padre da Paróquia de San Carlos Borromeo, ao se referir à parábola do filho pródigo, o perdão verdadeiro não se esgota nas palavras: ele exige gestos concretos, políticas públicas e transformações reais na vida das pessoas.
Esse movimento de reconciliação encontra paralelos inspiradores em Medellín — cidade que ficou mundialmente conhecida pela figura de Pablo Escobar, mas que hoje simboliza um dos maiores esforços do Estado colombiano em reconstruir dignidades. A urbanização das periferias, a criação de bibliotecas públicas e o investimento em mobilidade e educação são exemplos de como o poder público pode transformar territórios historicamente feridos em espaços de convivência e cidadania.
Retomando a questão da violência acentuada pelo narcotráfico e pelas divisões sociais dele decorrentes, vale mencionar o trabalho emblemático do sociólogo e escritor colombiano Alfredo Molano, intitulado Desterrados. Molano afirma: “Creo, con ellos, que sólo un acuerdo político profundo permitirá echar las bases de una verdadera democracia; la guerra no tendría resultado distinto a la dictadura de los vencedores.” Essa frase resume, com lucidez e dor, o dilema de um país que ainda busca se reconciliar consigo mesmo.
É justamente nesse horizonte que a experiência da UNIMINUTO em Perdomo adquire um sentido mais profundo. Sua presença em uma zona de vulnerabilidade social não é apenas educativa, mas também política e simbólica: inscreve-se como um ato de reparação e esperança — como quem afirma que o conhecimento também pode ser uma forma de perdão, não o que apaga o passado, mas o que o ressignifica e o reconstrói com justiça.
E talvez seja isso o que Paulo Freire chamaria de esperançar: o movimento de quem, diante das ruínas, ainda acredita. A UNIMINUTO de Perdomo é, nesse sentido, uma casa erguida sobre o solo da dor, mas sustentada pela fé no humano. Ali, o ensino se faz encontro; a arquitetura se faz abraço; e o aprendizado se converte em possibilidade. É a prova viva de que, mesmo onde o medo plantou raízes, a esperança pode florescer — silenciosa, firme e luminosa.
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