Tensões e contradições em movimento

 




Chamou minha atenção a pressão demográfica na Isla de San Andrés. São cerca de 90 mil habitantes, sem contar o fluxo constante de turistas que chega o ano inteiro. Esse adensamento gera um saturamento dos recursos. Dois pontos saltam aos olhos: água e lixo.

Mesmo com investimentos públicos em dessalinização, a ilha segue no fio da navalha entre a demanda e a oferta de água. O manejo de resíduos também se torna um desafio numa área pequena e cercada de mar — tudo que entra precisa de destino, e nem sempre há para onde ir.

Ao mesmo tempo, a economia local parece aquecida: comércio cheio, serviços girando, e muitos voos pousando e decolando diariamente. A ilha vive uma contradição contemporânea: de um lado, a exigência do crescimento econômico; de outro, os limites ecológicos — poluição, esgotamento de recursos, impactos sobre o cotidiano dos moradores. Fica a pergunta que me acompanhou o tempo todo: o que é “crescer” quando o território é finito?

Há ainda a dimensão cultural. Em San Andrés convive o inglês crioulo dos raizales com o espanhol. Essa fricção não é apenas conflito: frequentemente é criativa, produz mestiçagens interessantes — na fala, na música, na cozinha, nas festas. Não foi à toa que ali me senti um pouco em Juazeiro da Bahia: “todo mundo junto e misturado”.

Ao mesmo tempo, percebi em alguns nativos um jeito um pouco ríspido no trato — talvez traço cultural, talvez cansaço com o turismo. O excesso de visitantes, ainda que traga divisas, pode invadir a vida cotidiana e tirar a tranquilidade de quem mora.

De volta ao continente, em Bogotá tive muitas oportunidades de conversar com gente local. Circulamos mais de Uber (pegamos o TransMilenio apenas uma vez) e, nas corridas, eu puxava conversa com os motoristas.

Surgiram temas que nos são familiares no Brasil: polarização políticadescrença com instituições, reclamações sobre corrupção. Um exemplo recorrente era o do metrô de Bogotá, projeto que, segundo eles, levou décadas entre idas e vindas. Essas falas mostravam que não há narrativa única: há variaçõestensões e contradições em movimento.

No funicular do Monserrate, encontramos o Eduardo, um menino de uns dez anos. Ele falava, com brilho nos olhos, das belezas da Colômbia: a culinária, a biodiversidade, o povo. Um orgulho simples e direto. Entre as queixas ouvidas nos carros e o entusiasmo de Eduardo, ficou para mim a lembrança de um país complexovibrante e, como todo lugar vivo, feito de paradoxos.




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