Veias Abertas e Sonhos de Bolívar



Quando estava no doutorado no Canadá, voltei a ler As veias abertas da América Latina, do uruguaio Eduardo Galeano. Essa releitura me marcou profundamente. O livro desperta um reconhecimento doloroso — uma tomada de consciência sobre nossas condições históricas de violência, exploração e colonização, que não pertencem apenas ao passado: ainda hoje somos, em muitos sentidos, subjugados por elas.

Essa relação entre o Sul e o Norte, marcada por desigualdades estruturais, também pode ser fonte de força e resistência. Há uma potência em afirmar o que somos, em transformar a ferida em marca e a marca em identidade — numa espécie de fortalecimento simbólico do Sul global.

Talvez por isso eu sinta tanta ressonância entre o espírito de As veias abertas da América Latina e o projeto que hoje me envolve aqui, na Colômbia: a constituição de redes e o fortalecimento das revistas acadêmicas latino-americanas (estamos também em parceria com Portugal, Espanha e alguns países de África). Essa missão carrega, de certo modo, o mesmo sopro utópico que habitava o sonho de Simón Bolívar — o de uma América livre, unida e solidária.


Independentemente das circunstâncias históricas, esse mito bolivariano permanece como um lembrete essencial: o de que há um princípio que nos atravessa — o de lutar para que o Sul continue falando com sua própria voz.

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